O livro de um milhão de dólares ou como mudar a mentalidade dos seus colaboradores em cinco passos

Ei, você, que está pensando em lançar um livro e quer desenvolver um tema que seja naturalmente vendedor, potencialmente capaz de te tornar milionário (dizem que ainda é possível ser escritor E milionário, mas eu só vou afirmar isso se conseguir, algum dia). Tome nota desse título: COMO MUDAR A MENTALIDADE DOS SEUS COLABORADORES – CINCO (OU TRÊS, OU DEZ) PASSOS.

Num tempo em que todos querem seguir as fórmulas fáceis para atingir resultado, pode escrever, esse título vai vender que nem água. Eu não corro o risco de escrever ele por uma razão simples: ainda (ênfase no ainda) não é minha praia escrever coisas para ensinar nada aos líderes do mundo corporativo. Meu lugar ainda é privilegiado, o de aprender com eles. E isso eu aprendo, muito, diariamente, especialmente depois que assumi o lugar de consultora-mentora-jornalista-curadoradeconteudo-estrategista. A relação neste lado, que pode ser mais franca, transparente e clara, me traz insights diários que, se colocados em prática, podem ser transformadores.

Vamos responder, primeiro, à pergunta do título-livro: como mudar a mentalidade dos seus colaboradores? Primeira pergunta-provocação: por que você quer mudar a mentalidade dos seus colaboradores? Sim, porque antes de chegar em algum lugar você precisa estar extremamente seguro do porquê. A maior parte dos líderes quer fazer isso porque sente dificuldade em suas equipes de protagonizar mudanças e isso vai desde sugerir e implementar novas ideias, produtos e soluções até transformar comportamentos e hábitos que possam tornar o ambiente de trabalho mais agradável, acolhedor, saudável e (a palavra da vez) feliz.

Quase sempre a responsabilidade mais clara, numa análise rasa, é a da falta de comunicação. Costumo dizer que chego às empresas porque a coitada da comunicação foi percebida como um “problema” quando, na verdade, com um olhar mais atento, a gente descobre que ela é só um sintoma – e o buraco está mais embaixo. Talvez por isso, depois de duas décadas trabalhando e estudando comunicação, eu tenha decidido estudar melhor as pessoas, sua psicologia e modo de funcionamento. Como um médico generalista que se frustra quando diagnostica e trata uma “virose”, eu não estava contente com a resposta rasa de que a comunicação era o problema – quando, no fundo, o problema está mesmo na tal mentalidade (mas – alerta de spoiler! – não é a do colaborador).

Por isso, depois de responder a primeira pergunta (por que você quer isso?), a seguinte é: você está disposto a correr o risco de incentivar na sua organização uma cultura que permita a mudança de mentalidade? Sim, porque você desenvolve pessoas para o mundo, como os pais dizem que criam os filhos para ele. Uma vez que peça o melhor delas, instigue o uso dos seus melhores dons e talentos, promova um ambiente de inovação e criatividade, entregue ferramentas para que elas melhorem e se desenvolvam continuamente, você precisa SUSTENTAR um ambiente que acolha esse perfil de colaborador, altamente inquieto. E isso, vou te contar, é um perigo em tempos de alta rotatividade e uma multiplicação de pessoas com perfis facilmente seduzidos por novas oportunidades, baixa resiliência e paciência. Contudo ( e aqui está o segredo que você vai contar no clímax do seu livro milionário), se você não tiver disposto a perder (inclusive tudo) e recomeçar, se necessário, reinventando o seu próprio jeito de fazer negócios, é bem provável que a primeira mudança de mentalidade tenha que ser a sua.

Os líderes inspiradores não têm medo – ou até tem medo, mas sabem dos benefícios de confrontá-lo e arriscam. Eles ousam inovar, estão abertos para mudar seus próprios comportamentos, revisitar suas próprias práticas e começar em si próprios a mudança de mentalidade. Quase sempre isso inclui a percepção dos colaboradores como seres humanos, considerando seu CPF antes do CNPJ. Não temos mais espaço, nesse novo mundo em construção (do qual amo poder participar ativamente, com um trabalho que recentemente batizei de “mentoria secreta”), para rotular, classificar e categorizar as pessoas de acordo com a quantidade de tempo que elas passam olhando para o computador, muitas vezes sem fazer nada, numa “figuração” só para que sejam percebidas como o/as funcionário/as do mês, sempre as primeiras a chegar e as últimas a sair.

Está cada vez mais difícil contratar pessoas qualificadas simplesmente porque elas sabem por que coisas não precisam mais passar, que tipo de cena ou jogo não precisam mais fazer. Isso leva algum tempo (e alguns anos de terapia e/ou experiência prática) para construir. Por isso, se a sua organização não for efetivamente atraente, interessante, fértil para promover e sustentar o crescimento dessas mentes mais criativas e arrojadas, dificilmente você vai conseguir ter um time qualificado o suficiente para manter seus negócios financeiramente saudáveis.

Porque o que importa, cada vez mais, é menos o dinheiro e o salário no final do mês e mais o quanto você reconhece que essa pessoa faz a diferença no seu negócio. Todas as pessoas. De todos os cargos. Em todas as áreas. O líder inspirador sabe ouvir todo mundo e, mesmo que não goste do que ouve, vai procurar promover mudanças a partir das dicas, sugestões e feedbacks de todos.

Nesse novo mundo para onde estamos caminhando as regras do jogo são claras: os ambientes funcionam de forma integrada, colaborativa, multidisciplinar, conectada, transparente, humanizada.

Se você atrasar um dia, ou dois ou três, as pessoas não vão te olhar torto.

Se você parecer especialmente triste, as pessoas se importam e perguntam como você está.

Se você tiver dúvida, vai perguntar.  Sem medo de ser julgado, classificado ou até demitido. A cultura do medo é substituída pela cultura da empatia. Todos jogam no mesmo time. Todos estão do mesmo lado.

E isso não está só escrito no quadro dos valores/missão/visão no RH. Isso é visto no comportamento, que começa pela liderança. Isso é estimulado e praticado. Dia após dia. Até que se torne um hábito e faça com que quem chega com a cabeça fechada ou uma mentalidade muito quadrada, sexista ou conservadora, por exemplo, se sinta o estranho. Até que o novo se torne natural. A mudança de mentalidade, na organização, começa pela liderança e deve ser praticada e estimulada como todo novo exercício, como um treino de ginástica, uma espécie de musculação mental.

A última pergunta que geralmente faço aos líderes das empresas que me contratam, até para entender o quanto as estratégias de comunicação podem mesmo contribuir para essa mudança de mentalidade, é: o quanto você está apegado a essa ideia, a esse projeto e ao jeito como a sua empresa tem funcionado até aqui? Porque secretamente, e muitas vezes até sem consciência disso, a grande verdade é que alguns líderes não querem correr o risco de perder o que já está pronto, de mexer num time que está ganhando, como já ouvi tanto. E, sem coragem para perder tudo, inclusive as melhores ideias, um bom autor nunca vai escrever seu melhor livro/artigo, com medo de que alguém “roube” seu conhecimento.

Um líder que não ensina o que sabe, como um autor que não compartilha suas ideias, é como um terreno estéril. Nada pode ser roubado, mas nada vai nascer de lá.

Eu prefiro o risco de ter minhas ideias roubadas e fazer a diferença no mundo (ou pelo menos nos lugares onde estou/vou com meu conteúdo) porque o que tenho de mais valor, e geralmente esse é o segredo das grandes organizações, jamais poderá ser copiado. Viver assim, quase que perigosamente, é o que transforma estagiários inquietos em presidentes de multinacionais; e presidentes de multinacionais em eternos estagiários, abertos ao aprendizado para se reciclar. E começar tudo de novo, se for preciso, porque seu maior ativo não é o seu patrimônio em si: é o que ele aprendeu enquanto construía o seu patrimônio.

Por isso todo líder inspirador que conheço já escreveu ou tem o desejo de escrever um livro. Ele sabe que o grande tesouro é o que ele sabe, não o que ele tem. O que a gente tem pode ser roubado – o que a gente sabe e sente, o que a gente viveu, ninguém tira de nós.

Isso se chama legado e as melhores empresas que conheço estão seriamente comprometidas em construir/deixar/compartilhar um. Porque só assim o ser humano “supera” seu maior inimigo aparente: a mortalidade. O legado é a maior prova de que existimos e fizemos uma passagem incrível por aqui – muito mais do que, apenas, sobrevivemos.

 

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