E agora, José? Uma reflexão sobre o que aconteceu com o mundo e o que está por vir

José, e agora?

Para quem servimos a sobremesa nova que acabamos de aprender?

Com quem dividir os jogos de mesa, aparatos e acessórios de cozinha que compramos? Aliás, por que mesmo compramos tanta coisa?

O que aconteceu com o mundo, José?

Ele se rendeu ao desconhecido inimigo invisível que não sabemos manejar, controlar, entender nem soubemos antecipar. Olha só: eis que não sabemos nada importante agora. E todo o conhecimento que acumulamos? Serve para que?

Eis que nos rendemos à nossa humanidade.

Eis que nos demos conta de que essa coisa de ser super herói com super poderes é conversa fiada. Somos pó. Em um instante somos nada. Nossos super poderes só são ativados na presença do outro, como os heróis daquele grupo que juntavam os anéis coloridos – e era dali, dessa união, que viria a sua força para derrotar o inimigo mais difícil.

Nunca foi sobre mim ou sobre você. Sempre foi sobre nós. É o plural, o coletivo que nos une. Não há nascimento de nada sem que a célula se divida se multiplique. Nenhum sistema no mundo (nem no corpo da gente) funciona sozinho, desintegrado. Tudo é par, binário. Nada existe só. Até o tal vírus precisa de um hospedeiro para se mabifestar.

Essa parece ser a grande lição que ainda faltava a gente aprender. Ou lembrar. Porque as espécies que vieram antes de nós sempre souberam disso. Só existia evolução com trabalho em equipe. Com senso de comunidade. Com todos (se) importando (uns com os outros).

Hoje a escancarada brevidade da vida nos convida para a necessária humildade que precisávamos resgatar para seguir adiante. Estávamos à beira de um grande colapso enquanto espécie. Não estamos num buraco hoje. Estávamos prestes a cair nele ontem. E era um abismo sem volta. Sem chance de repensar nada.

Descobrimos que não somos tão poderosos assim, afinal.

Saqueamos recursos que nem eram nossos como se não houvesse amanhã. Usamos água como se ela fosse infinita, desperdiçamos tempo com coisas fúteis, inúteis, vazias.

Não haverá nenhum mercado vendendo tempo quando a “crise” passar.

Não é atrás de álcool gel ou vacina que precisamos ir. Precisamos ir atrás de nós mesmos e nos trazer de volta. Pra dentro da nossa própria casa, que já tem deixado de ser um lar faz tempo.

Precisamos resgatar nossa bondade, nossa fé, nossa gentileza, nosso respeito pelo outro. Por todos os outros. Precisamos reintegrar nosso senso de pertencer a algo muito maior que nós todos.

Estávamos confinados em nosso egoísmo, que nos fazia orbitar em torno das nossas bolhas e umbigos.

Agora estamos socialmente isolados para refletir quão necessária é a presença do outro.

Estamos saindo da era ro eucentrismo para a do outrocentrismo.

Essa é a evolução que precisávamos e está acontecendo da forma mais gentil possível. Coisa que não temos sido uns com os outros há tempos.

É na dor que a gente aprende, ainda.

É com ela que a gente cresce. Ainda.

Logo que o amor for entendido como o único caminho possível, a única cura, essa pandemia será dissolvida. Ela é só uma “jogada” para que saiamos da grande Matrix onde, hipnotizados, competíamos. Sobrevivíamos.

Agora temos a chance de aprender a viver. Viver a vida real.

Mais e melhor.

Encheremos nossos dias de vida e não o contrário.

Isso tudo para que, quando a gente possa voltar a sair de casa, aprenda a valorizar os abraços que são pousos onde a alma precisa se lembrar: estamos juntos.

Somos parte da mesma coisa. Viemos e voltaremos para o mesmo lugar. Mas só faremos isso de um jeito: de mãos dadas.

Elas só estão separadas agora para a gente entender que qualquer travessia só se faz quando elas estão juntas.

Sabe o que aconteceu às crianças da nossa geração, hiperativas e multi conectadas? Elas pararam de implorar pela nossa atenção e começaram a repetir nossos comportamentos tentando entender o que afinal poderia haver de tão divertido em passar horas, dias, meses e anos se relacionando com as máquinas. Online na rede. Offline na vida. Elas nos mostravam no que estávamos nos transformando.

Pergunte a uma criança como elas prefeririam brincar. Sábias que são, vão responder aquilo que não soubemos ou sabíamos importante.

Brincar só é divertido com o outro. Com os outros. Todos. Juntos. Mão com mão. Olho com olho. Coração pulsando com coração pulsando.

Simples assim.

Entenderam, agora, José?

(Tomara que sim!)

E depois do reset, vamos começar a fazer as coisas direito, tá? Porque nada, absolutamente nada, será como antes. Especialmente se nós tivermos, enfim, nos encontrado.

Aí sim vai ser bom voltar a (com) viver.

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