Comunicação e mulheres: o que podemos ajustar?

Comunicação e mulheres

Há algum tempo venho refletindo sobre a fala de figuras femininas extremamente fortes em minha vida. Não apenas figuras públicas, mas pessoas ao meu redor que, durante a minha jornada, apresentavam determinados comportamentos e tons de voz que somente agora consigo entender completamente. Quero compartilhar alguns pontos da minha reflexão com vocês para que, mais que obter respostas, isso sirva para nos fazer mudar a história, a começar pela nossa própria.

Comunicação e mulheres

Esse artigo não é sobre e para as mulheres, apenas. Esse artigo é especialmente para que os homens tomem consciência de quão importante para nós é saber que vocês conhecem os fatores que influenciam nosso comportamento, nosso jeito, nossa comunicação, diariamente. Sobretudo, que nos ajudem a incluir mais respeito, compaixão e empatia em nossas relações, não importa o seu gênero.

Até poucas décadas atrás (e a série `Anne with na E`, que não vou cansar de recomendar, fala muito sobre isso) as mulheres eram educadas para serem mães, esposas, cozinheiras, donas de cada. E só. Não lhes competia emitir opinião sobre nenhum assunto, exceto os triviais; o direito ao voto também é uma conquista recente; a busca pela perfeição, que se revelava sobretudo na beleza e cuidado com seus corpos, era constante – e a pressão por atender as expectativas alheias, de perfeição nesses papéis, castigava suas almas já sensíveis.

Acontece que, para início de conversa, a gente precisa aqui assumir que viemos a esse mundo com equipamentos diferentes. Não, não somos iguais aos homens. O mundo seria terrível (e inviável) se povoado apenas por eles. Também não quero desprezar os papéis masculinos aqui – até porque muitos comportamentos machistas foram forjados da mesma forma que os nossos: pela educação que tiveram nossos pais, e os pais deles, e assim sucessivamente. Quero apenas apresentar as diferenças. Para que elas sejam reconhecidas, vistas e questionadas, inclusive.

Passando para os nossos tempos, o que vejo hoje são poucas mulheres ainda ocupando os melhores cargos no mundo corporativo – especialmente a alta liderança e os Conselhos, por exemplo – no mundo organizacional. As poucas que existem, quase todas elas, para chegar nesse lugar, tiveram que abrir mão da sua natureza (sua sensibilidade, amabilidade e intuição, por exemplo) para chegarem onde estão. Eu fui uma dessas mulheres e tive muitas, como eu, me liderando. Em comum, todas tinham a fala dura e firme; uma certa frieza e pulso forte para lidar com situações adversas e poucas viam a família como prioridade ou opção. A gente sempre soube das implicações da maternidade na vida da carreira de uma mulher, por isso muitas escolheram não ser mães cedo (ou nunca). Nutrir relações fora do ambiente profissional também era incomum para este grupo de mulheres a que me refiro.

Outra característica, já passando para o ponto que nos interessa: a forma de se comunicar. Geralmente secas, nada sutis, eventualmente brutas e impessoais. O jeito de se vestir quase sempre se assemelhando ao dos homens. Muitas delas ganhavam o apelido secreto de “trator” por conseguirem passar por cima de quase qualquer coisa com o mínimo de delicadeza.

Não estou dizendo, e é bom deixar isso bem claro, que isso ainda acontece hoje ou é comum. Apenas estou afirmando que é como eu me recordo de algumas das CEO’s, Presidentes ou Diretoras de várias empresas que conheci.

Pouco depois de sair do mundo corporativo eu me dei conta de que eu mesma não tinha a menor ideia de como me assemelhava, em muitos pontos, com essas mulheres. Especialmente quando cheguei em São Paulo, os rótulos que me cercavam (baiana, mulher, obesa mórbida na época) me fizeram abrir mão do meu estado “natural” para assumir uma fantasia defensiva óbvia. Então eu percebi que a comunicação entre mulheres em cargos de chefia era um sintoma que escondia uma dor absurda, que crescia inflamando nosso corpo como pus – e um dia, inevitavelmente, ele haveria de estourar.  A dor de não sermos quer somos em nosso estado natural.

O fato é que evoluímos, como o mundo, porém passamos a ocupar papéis demais – e muitos deles, que deveriam ser “divididos” com os homens, já que as regras mudaram dos dois lados, não o são. E isso cansa. Mais cedo ou mais tarde, além de machucar, isso cansa. Porque é impossível ser mãe, filha, esposa, profissional, dona de casa, psicóloga, conselheira, cozinheira, gerente da família e tudo o mais que nos convidaram a ser, sem falha, sem descanso, sem opção de não fazer algo. E quase todas as mulheres que conheço dão conta disso – e muito mais.

Só por isso os nossos salários deveriam ser quase sempre maiores (e não menores) do que os dos homens, mas essa discussão de direitos e deveres seria infinita aqui e não vou criar “polêmica”.

O que queria mesmo é fazer você, mulher como eu, refletir: quanto você tem se cobrado, se punido, se obrigado a fazer com maestria tudo que lhe jogam no colo para fazer? Sem chorar, sem cansar, sem correr? O quanto você tem tratado com violência outras pessoas (inclusive outras mulheres) por que se sente tratada ou se trata assim? Quanto você acha que precisa elevar o tom da voz para ser ouvida, escutada, considerada? Será que já não é hora de (tentar) mudar?

Porque, de verdade, me parece que estamos entrando num momento – e num mundo – bem novo, que demanda nossas virtudes biológicas como solução (e não mais como características que devemos esconder).

Precisamos acolher a nossa natural sensibilidade, o senso de justiça, o olhar multidisciplinar e multifacetado, a compaixão, a empatia, a escuta e o amor como virtudes que nos diferenciam (positivamente) dos homens. Que são fundamentais nas novas organizações, que tem sim um número crescente de mulheres subindo degraus. Muitas vão chegar ao topo, de uma vez só, e você pode anotar o que estou dizendo.

Mas nem eu nem você precisamos perder a capacidade de nos comunicar olhando nos olhos, de nos conectar profundamente com a dor do outro. Não precisamos nem deveríamos ter que abrir mão da nossa natural simpatia e gentileza. E nunca, nunca mesmo, deveríamos ter parado de sorrir porque só seríamos levadas a sério se nos mostrássemos tão sérias (e prepotentes, e machistas até) como aprendemos.

Está na hora de assumirmos os púlpitos, os palcos, as cadeiras dos conselhos com a sabedoria que temos para avaliar estrategicamente uma solução que os homens tenderiam a resolver com o fígado. Aliás, os homens estão usando muitas virtudes tipicamente nossas para ganhar essas posições novas de destaque (porque a nova liderança exige esse olhar compassivo).

Sim, eu sei que já tem muita coisa mudando – mas ainda há muito por mudar. E isso pode e precisa passar pela gente. Pela nossa fala e expressão. Pelo nosso jeito de ver as coisas e fazer tantas coisas de forma criativa que só mesmo uma empresa sem nenhuma visão deixaria de escolher uma mulher para CEO pelo equipamento biológico implicado nela.

Sabe o tom de voz que as mães usam para aconselhar um filho diante de um dilema moral? É esse tom que a gente precisa aprender a usar nas reuniões. Sabe o potencial de mediar conflitos e mudar relações que temos? Eles são os pré-requisitos da nova liderança das atuais empresas e instituições de todo o tipo.

Não acho que a gente deva nem precise abrir mão de nenhuma das nossas louváveis conquistas para isso, nem que tenhamos que escolher um caminho ou outro (família ou carreira) para nosso bem-estar ser completo. Acontece que precisamos fazer isso recuperando nossa capacidade de sermos empatas inclusive com outras mulheres (o que na maior parte das vezes não somos) em vez de competir com elas – ou com os homens. Precisamos entender que a colaboração é o caminho de cura das doenças nas empresas, sobretudo as que envolvem a saúde mental dos seus funcionários. Precisamos praticar gentileza, sensibilidade, altruísmo.

Temos tudo isso sobrando em nossa estrutura original – e, mesmo que você tenha escondido muito fundo para não se sentir ou parecer frágil na frente de ninguém, dá para recuperar essas virtudes e torna-las aliadas – e não ameaças.

Não precisamos ter que agradar todo mundo nem exibir corpos perfeitos – que bom que estamos descontruindo essas crenças; mas não podemos achar que nos vestir bem, assumir nossa beleza ou nosso cuidado conosco são coisas que nos desqualificam. Muito pelo contrário. É isso que nos torna ainda mais capazes. Podemos ser, sim, o pacote completo. Porque apesar dos hormônios, da rotina enlouquecida, da incompreensão ou até do nosso autoabandono ou auto sabotagem, conseguimos fazer a diferença nesse mundo. Dentro ou fora das empresas.

Podemos (e precisamos) moderar nossa fala para parar de querer superar alguém (homens ou mulheres) “no grito”. Devemos assumir que não existem “lados”, mas uma divergência cultural que pode e precisa ser mitigada quando e se cedermos. Cada lado cede um pouco e entramos no tal caminho do meio, que a meu ver é o único que funciona.

Não precisamos de uma fala mansa contida nem de um grito colossal que machuca. Podemos encontrar um tom de voz adequado para que nossas vozes continuem sendo escutadas – e nossas ideias sejam levadas em consideração. Meu convite aqui é para que a gente reflita sobre o lugar da nossa voz, agora. Se ela é capaz de edificar ou destruir, sabe?

Quando conseguirmos derrubar todos os muros que historicamente dividiram os homens e as mulheres, colocando uns contra os outros, podemos construir de mãos dadas belas pontes.

Sem medo, ofensa, assédio, humilhação, desrespeito ou desigualdade. Logo essas palavras já não farão parte do vocabulário das organizações – e do mundo. Então a gente já pode exercitar tirar elas do nosso vocabulário agora. O jeito melhor de fazer isso é parar de fingir ser o que não somos e assumirmos o que temos de melhor em todos os lugares. Usando todos os recursos que generosamente nos foram dados pela natureza. Inclusive e principalmente a capacidade de criar, de gestar, de dar vida a um mundo novo. Ele já está em processo de parto.

 

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