Estado de flow, psicologia positiva e auto-gestão no trabalho

Toda vez que faço um processo de imersão num novo cliente gero, mais do que uma base de aprendizado e dados sobre aquela empresa, um novo aprendizado para aplicar, na prática, conceitos que tenho estudado na teoria.

Para quem não sabe, estou terminando a pós em Psicologia Positiva, Ciência do Bem-estar e Autorrealização pela PUC do Rio Grande do Sul. Uma pós que redesenha o meu próprio trabalho e modo de atuar nas organizações, que cada vez mais incluem, mas não se limitam, às minhas habilidades com a comunicação.

O fato é que tudo que tenho estudado, aprendido, observado (e comprovado por base amostral bem consistente) é que:

  • Somos nós quem orientamos, o tempo inteiro, o curso da nossa carreira, da nossa jornada de trabalho. Com pequenas mudanças de atitude, comportamento ou mentalidade, por isso, podemos mudar a nossa experiência com o que estamos fazendo, tornando melhor o ambiente onde estamos inseridos e;

 

  • É quase impossível ( a não ser que queiramos muito manter um padrão e nosso medo de sair do lugar e tomar o controle da nossa vida seja tamanho) vivermos infelizes com o que estamos fazendo. A gente pode mudar tudo, a todo instante: não apenas o lugar, mas a natureza do nosso trabalho. Isso não tem quase nada a ver com a organização, com nada externo, mas conosco.

 

Sim, essa história de auto responsabilidade devolve para a gente e para de terceirizar a “culpa” do que estamos vivenciando e permitindo acontecer nas nossas vidas.

Não estou afirmando que não haja organizações ruins, mas o fato é que TODAS elas estão buscando acertar (e aprender) conosco, com seus colaboradores – e quase sempre o REAL problema não está fora de nós, está dentro.

Depois de passar por dois esgotamentos (Burnout) quase seguidos e experimentar trabalhar em algumas empresas bem cruéis em termos de estilo de gestão, posso fazer afirmações com muita propriedade.

Especialmente quando entendi que falta, mesmo, essa compreensão de que somos nós quem auto gerenciamos e regulamos as nossas jornadas no trabalho e o destino das nossas carreiras, que são parte importante sim de quem somos.

Essa semana vi uma foto de uma amiga querida, jornalista, que atuou na minha equipe até meados de 2013, falando da mudança de rumo da sua carreira. Depois de abandonar uma carreira (que tinha tudo para ser bem-sucedida, dada a sua competência) na área de comunicação, ela foi fazer Direito depois dos 30 e acabou de se formar. Fiquei tão feliz com aquela imagem! Senti tanto orgulho da coragem que ela teve de se transformar, sabe? Ela voltou para a sala de aula, cumpriu com todo esforço (que lhe é peculiar) uma nova jornada de formação acadêmica, por cinco anos, numa área superdifícil. Isso depois de experimentar uma “janela” de tempo tentando empreender com uma franquia, numa malsucedida experiência. Acontece que ela se permitiu viver tudo. A decepção com a profissão antiga, a tentativa de um novo caminho e a escolha por algo que fizesse mais sentido. Hoje ela é jornalista E advogada. Isso é um currículo e tanto!

Eu tive vontade, imediatamente, de escrever para ela. Porque (uau!) como ela foi guerreira! Não desistiu de “acertar”, de encontrar algo que realmente pudesse fazer sentido para ela. Tinha muitos motivos para desistir, mas não o fez. Jogou tudo que não deu certo para o alto e perseguiu obstinadamente outro caminho.

É isso o que eu entendi aprendendo mais sobre o flow. Ele não tem nada a ver com se jogar numa rede ou num rio para ver a vida passar, sem fazer nada. O estado de fluxo que norteia quase todos os construtos em torno da psicologia positiva não tem nada a ver com vida fácil ou contemplação. Pelo contrário. O estado de flow demanda contínua regulação dos desafios e habilidades que vamos desenvolvendo para lidar com esses desafios. Quando adquirimos habilidades mais que suficientes para lidar com um desafio ficamos numa zona de tédio que também não é interessante. Quando, pelo contrário, o desafio se mostra maior do que as habilidades que temos, que conseguimos desenvolver para cumprir determinada tarefa, entramos numa zona de ansiedade e estresse que nos causa muitos problemas – inclusive a pré-disposição para o estresse e o esgotamento.

O grande segredo dessa regulação, desse tônus que conquistamos e está num caminho entre o desafio colocado e a habilidades que temos ou precisamos desenvolver, só pode ser compreendido (e gerenciado) por nós mesmos. Só um profundo autoconhecimento nos permite checar, todo o tempo, se os desafios estão muito aquém ou muito além (porque, se uma tarefa não nos desafia, ela simplesmente não faz muito sentido) das nossas capacidades de executa-lo (o que também envolve compreensão do que temos e/ou podemos desenvolver em termos de habilidades e recursos).

O estado de flow é isso. Está numa ação que nos provoca e nos estimula de um jeito tal que nos permita estar inteiros neste movimento, completamente absortos e envolvidos, de forma que não temos ideia de tempo, não vemos a hora passar. Temos, em flow, a sensação de estarmos em absoluta completude e imersão. Porque aquela tarefa nos envolve, nos desafia, tem um sentido, um propósito.

Enquanto escrevo esse texto, por exemplo, atinjo esse estado. Não sei quanto tempo passou desde que comecei e não estou preocupada com isso. Não peguei no celular nem senti fome. É um estado de concentração máxima, de produção de algo que você sabe que vai ter um impacto – nem que seja na vida de uma pessoa apenas. Tem que ter paixão, tem que usar suas habilidades, tem que ser desafiador.

Quando escrevi meu primeiro livro eu me senti assim. Quando converso com alguém interessante, quando canto ou componho, quando danço ou entrevisto uma pessoa, quando faço uma palestra ou entro numa reunião que me faz pensar e/ou criar soluções – estou em flow. Esqueço o tempo. Esqueço o externo. Estou inteira, 100%, ali, concentrada na atividade.

Todos sabemos o que nos leva a esse estado. Você vai se lembrar de algo que fez e te deixou sem noção do tempo, que te causou tamanho bem-estar que você esqueceu de si próprio. É a tarefa, em si, que toma conta de tudo. Estar no palco cantando ou dançando, fazer algo manual que exija dedicação e talento, raciocínio e concentração. Uma conversa em que você não vê o tempo passar. Imagine qualquer uma dessas coisas agora. Isso é flow.

E se nada na vida que você tem hoje te provoca essa sensação é sinal de que sua jornada precisa ser revista. Se você não sente isso no trabalho, na sua vida afetiva ou familiar, no seu campo social ou em seus hobbies – bem, eu preciso te contar a verdade – você não está vivendo uma vida com significado, não está fazendo o que faz seu coração pulsar.

E isso demanda, para finalizar, um movimento que só você é capaz de calcular. Só você, mais ninguém, sabe o que não está funcionando na sua vida e por que não está funcionando. Isso pode ter tudo (ou nada) a ver com a sua profissão, com o lugar onde você está trabalhando. E o próximo passo quase sempre demanda a coragem de assumir que não, não está tudo bem – e você precisa SE mexer, SE mudar. Urgentemente.

Muitas vezes uma boa conversa com um amigo, um mentor ou alguém com um pouco mais de experiência te fará entender que a maior parte dessas mudanças não precisam ser externas – mas quase sempre são necessários, sim, movimentos novos do lado de fora também.

E eles podem envolver aceitar, por exemplo, que determinada profissão não é para você – que você engoliu a seco algo imposto para atender uma expectativa externa e nada do que tem feito faz o menor sentido. Acho extremamente corajoso, mas justo com você, aceitar isso. Errei a direção, não é isso que me faz feliz, não vejo sentido algum nesse caminho: vamos mudar! Recomeçar, reaprender, mudar o curso. Como a Van, minha amiga agora formada também em Direito, fez, transformando completamente sua carreira.

Como eu fiz, encontrando (e desenhando) um trabalho que pudesse usar meus dons e talentos, que me desse a liberdade e a fluidez que tanto preciso para criar e solucionar problemas, estudar e aprender, ensinar e desenvolver pessoas, que é o que faço de melhor.

Não é “culpa” de ninguém se nada do que você fez até aqui deu certo ou fez sentido. Não precisa entrar nesse mood, porque achar culpados também não te trará nenhuma resposta – ou alguma solução.

O segredo é mesmo olhar francamente para sua jornada, analisar a linha do tempo da sua vida, entender tudo que você fez até aqui, desde o começo, e decidir, a partir de agora, por onde você quer seguir. Pode ser que você siga exatamente onde está, fazendo ajustes e regulações internas apenas. Pode ser que você vire a sua vida do avesso. Tem que importar para você, apenas, e muitas vezes as pessoas ao redor não vão entender – e elas não precisam entender por que só você sabe o que está sentindo. Essa é uma decisão que precisa partir de um diálogo franco de você com você. Só.

Qualquer que seja a sua escolha, ela será a mais adequada – especialmente se está alinhada com o desejo do seu coração.

Porque só dá para sentir isso, esse estado de fluir com o todo, quando a gente faz algo que está alinhado com o que o nosso coração acredita, sente, deseja. Só faz sentido se você souber qual o sentido.

Só faz sentido se o seu coração tomar um susto, se der frio na barriga, se pensar na possibilidade faz sua alma sorrir. Vá por aí. Esses são os sintomas de um passo que vai te fazer fluir com a vida. Tem que ser bom. Tem que fazer bem. Tem que dar um pouco de medo. E aí você vai com medo mesmo porque do outro lado do medo, posso garantir, grandes surpresas te aguardam.

Simplesmente vá. Escolha, decida e vá.

 

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